
Ele desistiu de um amor. Ele já mentiu. Ele não faz questão de bons gostos. Na verdade, seus gostos não combinam, não fazem sentido. Afinal, quem disse quem disse que um blues amargo não combina com um pop selvagem? Falam do mesmo homem. Ele. O homem. Ele não se importa de pedir desculpas. Ele engole orgulhos, e baixa a cabeça perante vozes mais altas. O homem treme de medo. O homem mantém aparências. O homem não quer responsabilidades. O homem, não admite, mas só quer prazer. Ele fugiu quando pôde. Quando não pôde também. Ele descobriu segredos que não eram seus. Aos seus, ele não suporta encarar. O homem teve vergonha de si e envergonhou aos seus. O homem esqueceu grandes amigos, não lhes telefonou. Ainda os ama. O Homem quis morrer. Quis nascer de novo. Quis nunca ter nascido. Quis viver para sempre. O Homem não se decide. Ele não sabe perder. Ele já perdeu vezes demais, mas nunca pára de fingir estar sempre ganhando. O homem até chora, vejam só! Outro dia o encontrei, e surpreendi uma lágrima manchando a sua camisa. E mais uma. E mais uma. Uma delas tocou o chão, e lá nasceu uma plantinha pequena. Claro que não, é mentira. Plantas não nascem em chãos de pedra. Quem lhes tiver dito isso, mentiu. Ainda assim houve algo de novo após aquela lágrima. O homem engoliu o choro. Ele parou de pensar naquilo em que não vale a pena pensar; sinapses não custam assim tão pouco. O homem admitiu a perda. Ele largou vergonhas e pudores. Descobriu que bom gosto é chato. Descobriu que música é só sobre sentir. Descobriu que quase tudo é sentir. Ele agora gosta de fome, de morrer de vontade. De admitir incompletudes e de gritar o quanto precisa. Ele agora fala alto. E sim, o homem ainda treme de medo. Mas medo é prelúdio de iniciativa, e ativa a produção de adrenalina. Fuel for life. O homem só não se esquece, e nem jamais poderia, que ele desistiu de um amor. Alguma primeira pedra...?


